Depois de muito tempo tendo o livro na estante e a curiosidade de saber a história eu finalmente li Lolita. É com toda certeza um dos livros mais perturbadores que já li e também um dos mais difíceis de resenhar. Não vou comentar tanto sobre o que se desenrola no enredo além do básico, porque acredito que nesse livro especificamente toda informação adicional pode ser prejudicial para a leitura.

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Essas são as duas edições que tenho, uma em português e uma em inglês.

O primeiro ponto que gostaria de ressaltar sobre o livro é a escrita. A narrativa de Nabokov é algo surreal. É uma escrita incrivelmente boa, uma das melhores. O livro tem um tema bem pesado, a pedofilia, e é uma leitura muito difícil, em inúmeros momentos tive que parar de ler e fazer outra coisa pra tirar minha mente um pouco da história de tão densa e perturbadora que ela é, mas ao mesmo tempo em que eu era acometida por esse sentimento sufocante (intensificado pela narrativa em primeira pessoa), eu tinha vontade de continuar lendo, simples e puramente pela escrita. Isso para mim é a maior virtude deste livro, a capacidade de através da escrita sermos transportados para um cenário específico e com um tema tão polêmico, mas também como essa mesma escrita é capaz de nos inebriar e tornar essa leitura mais agradável ao mesmo tempo em que nos fascina e repele. Observem quão maravilhoso é o começo do livro:

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado.

Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins – os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam este emaranhado de espinhos.

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Humbert Humbert é o protagonista e narrador desta história. Ele é um homem de quase quarenta anos que se apaixona por Dolores Haze, uma menina de doze. Devo dizer que parte da minha relutância em ler o romance era por não saber como se daria o desenvolvimento desse relacionamento entre os dois personagens, mas mais uma vez ponto para a escrita de Nabokov que apesar de relatar passagens com conteúdo sexual, não o faz utilizando obscenidades, ou seja o caráter erótico não está presente no livro. O que, apesar de auxiliar na hora de ler, não diminui a repulsividade e a dificuldade que o leitor tem ao encarar o tema cara-a-cara.

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Outra pérola que temos graças a escrita do autor é o fato de que por se tratar de um livro narrado em primeira pessoa, onde estamos a todo o momento na cabeça do personagem Humbert Humbert, não apenas temos pouquíssimos diálogos, o que contribui para uma narrativa mais densa, mas além disso: não se pode confiar neste narrador. Poucas vezes me deparei com um livro onde a minha opinião acerca de quem me contava a história era testada tantas vezes, isto porque a forma como Humbert conta sua história, como narra seus feitos e relata todos o seu amor e devoção por Lolita, nos fazem querer acreditar nele, nos fazem querer cair em sua armadilha perfeita. Se num segundo nossos cérebros cogitam a possibilidade de amenizar a situação ou de pensar “talvez ele esteja certo” é aí que caímos como tolos na teia de aranha perfeitamente armada por Humbert, pois no segundo seguinte vem à tona toda a impossibilidade de tal relacionamento e o fato de que não há desculpa, nem justificativa, nem romantização, nem qualquer coisa que defenda um homem de quarenta anos ter inúmeras relações sexuais com uma menina de doze. É simplesmente inaceitável.


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Devo acrescentar que para uma menina de apenas doze anos Lolita é muito à frente de seu tempo. Ela, depois de ciente da paixão de Humbert, também brinca um pouco de seduzi-lo apenas para torturá-lo. Ela é uma personagem muito complexa, mas o que acho mais interessante ressaltar é que como estamos dentro da mente de Humbert durante toda a história não podemos ter certeza de como Lolita é realmente, pois a sua descrição e a sua imagem estão contaminadas pelo ponto de vista de Humbert. Mais uma vez estamos presos a sua narração e a forma como ele vê o mundo. Novamente nota dez para a escrita de Nabokov.

Qualquer que seja a evolução desta ou daquela personagem entre as capas do livro, seu destino está cristalizado em nossas mentes, e , da mesma forma, esperamos que nossos amigos sigam esta ou aquela trajetória lógica e convencional que traçamos para eles. Assim, X jamais comporá a música imortal que conflitaria com as sinfonias de segunda classe a que nos habituou. Y jamais cometerá um assassinato. Aconteça o que acontecer, Z nunca nos trairá. Temos tudo bem arranjado em nossas mentes, e quanto mais raramente vemos determinada pessoa, maior é o nosso prazer ao verificar, quando ouvimos falar dela, como se vem adaptando obedientemente ao padrão de comportamento que lhe impusemos.

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Não é uma história bonita. Não é uma história de amor. É uma história indubitavelmente triste. Pode ser estranho ler isto, mas admito que fiquei com pena de ambos os personagens, mesmo que em se tratando do Humbert um pouco a contra gosto, mas fiquei, o rumo que a narrativa tomou me compeliu a isso (e talvez eu tenha caído um pouco na armadilha dele?). Não posso descrever o quão triste fiquei por Lolita, pelo rumo que a vida dela tomou, pela infância (ou quase o fim dela) que lhe foi roubada, por tudo que ela passou.

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Com toda certeza este não é um livro para todo mundo, por mais que eu ache que seria valido para todo leitor tem esse livro em sua bagagem sei que não é possível. É um livro muito difícil de ler e o tema já restringe enormemente quem irá lê-lo. É um livro que faz pensar, que te faz questionar as coisas em que você acredita, que faz você questionar a sociedade, a moralidade, enfim que dá um grande nó na sua cabeça, quase como uma grande crise existencial. É um livro complexo e completo (apesar de que eu não gostei muito do final). Não há dúvidas para mim de que Lolita é um clássico, seja pela escrita poderosa do autor, seja por ser capaz de nos levar em um local que não imaginávamos ser possível (a mente de um pedófilo), ou seja por simplesmente ter permanecido, sendo discutido, lido e alvo de tanta polêmica depois de tanto tempo de sua primeira publicação (1955). É, sem dúvida, um dos romances mais importantes do século XX.

Este foi o livro que escolhi para a Rússia no meu projeto “A Volta ao Mundo em 80 Livros” para saber mais clique aqui.

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4 comentários sobre “Lolita – Vladimir Nabokov

  1. Oi, Ketelen!
    Li esse livro na pré-adolescencia, tenho vontade de reler pois sei que muita coisa mudou na minha visão.
    É uma pena que esse livro seja tão romantizado, as pessoas não entendem do que realmente se trata ou da gravidade do assunto…
    Agora, uma curiosidade minha: o que você mudaria no final?

    • Acho uma pena mesmo a imensa romantização dá história e sim você deveria reler! Bom, eu não gostei de ver a Lolita tão acabada no fim sabe? Ela tinha só 17 anos e já parecia que a vida tinha acabado, isso me deixou bem mal, mas entendo que foi pra dar o impacto necessário na narrativa, mas não gostei muito.

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