Sob a Redoma é o primeiro livro de ficção de Stephen King que li. Ano passado li seu trabalho de não ficção Sobre a Escrita que gostei muito. Eu assistia a série de tv Under the Dome, isto é antes de ela ficar péssima. Por duas temporadas tudo ia razoavelmente bem, mas na terceira (e última) temporada as coisas desandaram tanto que o seriado foi cancelado. Para minha maior e mais estupefata surpresa o livro é completamente diferente. Eu sei que adaptações de livros para a tv ou para o cinema são exatamente isso, meras adaptações, mas por favor mudar a personalidade dos personagens? Isso já é ir um pouco longe demais, mas vamos do começo.

Mas talvez o levasse a refletir (pois, a seu modo, ele era um homem reflexivo) sobre a semelhança entre assassinato e Elma Chips: é impossível parar num só.

É apenas mais um dia comum na pequena e pacata cidade de Chester’s Mill no interior do Maine até que súbita e inesperadamente a cidade é isolada do resto do mundo por uma redoma invisível. Famílias são separadas, aviões explodem ao tentar atravessá-la, pessoas são (literalmente) cortadas ao meio enfim, é impossível sair ou entrar no território de Chester’s Mill. Essa parte da abertura da história é incrível, bem detalhada e com várias narrações de pessoas diferentes em lugares distintos da cidade encarando a redoma pela primeira vez e há inclusive uma narração de uma Marmota! A narração em terceira pessoa permitiu ao autor essa liberdade na hora de escolher seus narradores e ele não se limitou a apenas humanos, genial! Durante o livro há também uma narração de Horace, o cachorro que aparece na capa do livro, que é adorável.

Em um primeiro momento o maior dilema parece ser esse enorme campo de força invisível sobre a cidade, afinal de onde ele surgiu? O que exatamente ele é? Irá desaparecer? Como vamos sair dessa cidade!? São algumas das perguntas que os dois mil habitantes de Chester’s Mill se fizeram naquele dia de 21 de Outubro. Mas ao contrário do que pode parecer o maior problema destes moradores não é a Redoma. Sim, é claro que ela é assustadora, intimidadora e preocupante, sem falar em claustrofóbica, mas o verdadeiro problema de Chester’s Mill são as pessoas. A Redoma os isola do mundo e traz a tona o pior da crueldade humana. Muitos pontos positivos para o autor nesse sentido, pois além de contar com um elenco de personagens imenso, ele os desenvolve muito bem. As relações sociais são definitivamente o ponto forte de Sob a Redoma.

No começo do livro há um mapa da cidade e uma lista de alguns (mas não todos) personagens que estavam em Chester’s Mill no Dia da Redoma. Alguns destes personagens são: Big Jim Rennie, segundo vereador da cidade; Dale “Barbie” Barbara, veterano de guerra e atual cozinheiro do Rosa Mosqueta; Julia Shumway, proprietária e editora do jornal local, Linda Everett e a equipe de polícia da cidade incluindo Junior Rennie (filho do vereador); Rusty Everett e a equipe médica da cidade; Joe “Espantalho” McClatchey, Norrie Calvert, Benny Drake e Ollie Dinsmore, alguns adolescentes da cidade; Sam Verdreaux, o bêbado da cidade e os órfãos da Redoma (“redomórfãos”) Alice e Aidan Appleton. É importante ressaltar que esses personagens citados não são nem metade dos que contam na “pequena” lista e ainda há muitos outros que aparecem durante o romance e o mais incrível: há muitas narrações de muitos personagens. Me deixa completamente boquiaberta pensar em como deve ter demorado para organizar e também criar todos esses personagens, mais pontos à favor do autor. Devo ressaltar também que apesar de não gostar dele Big Jim é com certeza um dos melhores vilões que já li.

Sem dúvida o Sistema logo derrubaria a internet, como fizera com os celulares, mas por enquanto ela era a arma de Joe, a arma do povo. Era hora de combater o poder.

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Não posso esquecer de mencionar o fato de que este ótimo “livrinho” conta com 950 páginas sendo no presente momento o maior livro que já li. Ao contrário do que se possa pensar, não é de forma alguma um livro tedioso ou com uma história arrastada, ao contrário os eventos que envolvem a história duram apenas uma semana (sim!!) e Sob a Redoma foi concebido para ser uma leitura rápida. É o tipo de livro que deve ser pego e devorado da melhor forma possível. Então acaba que estas 950 páginas não são tão ameaçadoras assim e na verdade compõe uma narrativa que flui com uma rapidez impressionante. Apenas em alguns momentos demorei um pouco mais para ler, isso porque Stephen King tende a ser minucioso e isso é ao mesmo tempo bom e ruim para o livro. Houve partes em que foi um pouco mais cansativo de ler suas detalhadas descrições, mas nada que gerarou insatisfação suficiente para que a minha classificação do livro diminuísse. Em compensação houve várias partes em que estas descrições detalhadas foram positivas para a narrativa. É impressionante que em tão pouco tempo (dentro da história) as pessoas já se tornem tão cruéis e façam coisas tão horríveis uns com os outros, afinal é uma cidade pequena e todos ali se conheciam por anos a fio e em pouquíssimo tempo debaixo da Redoma surgem os “bons” e os “maus” e toda a estruturação social “do lado de fora” não tem mais a menor importância.

Segundo a análise espectrográfica essa coisa não está aí.

– E o ácido?

– Sumiu, a coisa que não está aí engoliu.

– Pelo que você sabe, isso é possível?

– Não. Mas a Redoma não é possível, pelo que nós sabemos.

Alguns dos meus personagens favoritos são Rusty, Joe, Ollie, Linda e Sam. Também gosto de Barbie e Julia, mas não gostei que na série eles tem um enfoque muito grande como os protagonistas quando na verdade no livro eles são apenas parte dos principais. Falando dessas mudanças entre a série e o livro, como eu havia dito no começo da resenha, é surreal o que foi feito com Under the Dome. TUDO é diferente do livro, é como se apenas os nomes dos personagens e a premissa da cidade presa na Redoma fossem usados porque tirando isso não tem absolutamente nada similar. As personalidades dos personagens são diferentes, vários relacionamentos são diferentes, como por exemplo Joe tem uma irmã que nem é parente dele no livro, Rusty simplesmente não existe (assim como vários outros personagens), e outras coisas envolvendo a Redoma em si e sua origem também não tem nada a ver. Admito em alto e bom som que o livro é mil vezes melhor do que a série e olha que eu tinha até gostado dela no começo. E outra é difícil falar deste livro, afinal muita coisa acontece, há muita politicagem, muitas tentativas de destruir a Redoma, incluindo mísseis, muito pânico e medo, muitas mortes… Enfim tem um pouco de tudo no livro e quanto mais eu lia mais intrínseca eu ficava na história e mais eu queria ler, porém é obvio que foi um alívio imenso terminar a leitura e poder dizer: eu consegui. 

As estrelas cor-de-rosa estão caindo, as estrelas cor-de-rosa estão caindo em linha.

Sob a Redoma é um livro complexo, com muitos personagens e muitos acontecimentos. Só tenho elogios à escrita de Stephen King, porque Sob a Redoma me ganhou muito por causa dela, sem falar nos capítulos rápidos e nas divisões em partes do livro, tudo isso ajuda a fazer com que a leitura flua. Ao terminar o livro (e finalmente descobrir o final dessa história que eu já conhecia há algum tempo) me peguei sentindo saudades, do modo de contar histórias do autor, dos personagens que passei tanto tempo junto e da pequena e aconchegante porém enigmática, Chester’s Mill. É um livro forte, com descrições densas e vocabulário explicito, com certeza um livro que mexe com o psicológico. É uma leitura mais do que recomendada e um cinco estrelas.

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