Coraline é um dos meus filmes favoritos, desde a primeira vez que o vi em 2009 já amei a história, mesmo com suas partes sinistras. Descobri então que o filme é baseado em um livro (os melhores filmes são) e então comecei a minha busca. Surpreendentemente Coraline é um livro muito difícil de achar, inclusive na internet onde está sempre esgotado, mas por fim consegui comprar meu exemplar.

Por um momento ela se sentiu completamente deslocada. Ela não sabia onde estava, e não sabia exatamente quem ela era. É surpreendente o quanto o que nós sabemos pode estar relacionado com as camas onde acordamos de manhã e é surpreendente como isso pode ser frágil.

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Comecei a ler Coraline de noite e caso você, assim como eu, for uma pessoa que não gosta de coisas que dão medo… Não recomendo que leia neste horário (risos). O livro é tão viciante que só consegui terminá-lo de madrugada, porque era impossível parar de ler até ter chego no fim.

Assim como no filme Coraline acaba de se mudar para uma casa, com vizinhos malucos e pais que não lhe dão atenção. É aí que ela encontra a porta. Eis a primeira diferença entre o livro e sua adaptação filmográfica, na animação Coraline se depara com uma pequena portinha escondida por trás do papel de parede, mas no livro a porta que emoldura a sala de estar é o completo oposto, imponente e imensa a porta parece algo assustador por si só.

Coraline colocou sua mão na maçaneta e virou-a, e então, finalmente, ela abriu a porta. Ela abriu-se para um corredor escuro. Os tijolos haviam sumido como se nunca tivessem estado ali. Havia um cheiro frio e mofado vindo da passagem aberta, como o cheiro de uma coisa muito velha e lenta.

Coraline passou pela porta.

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A sequência de ações é a mesma do filme, passar pela porta e descobrir um mundo novo que tem a mesma aparência do seu, porém onde tudo é melhor. É lá que vive a Outra Mãe, com seus olhos de botões e comidas boas, brincadeiras e tudo o que for preciso para conquistar Coraline a ponto de fazê-la ficar neste lugar para sempre.

Outra diferença, e esta eu considero bem grande, é que no filme Coraline fica encantada com este mundo aparentemente perfeito, mas no livro a Coraline não é assim, ela me pareceu mais… esperta, compreendendo logo de cara que aquele lugar não é algo bom, que o ar daquilo ali é de nada menos do que pesadelo. Apesar dessa diferença bem grande gostei de poder observar que no filme toda a produção de cores e sons que compõe esse mundo fizeram uma espécie de homenagem a história de Neil. Eu nunca tive medo do filme por isso foi diferente ter essa experiência com o livro, gostei de poder ter essas “duas versões”. As ilustrações do livro ajudam a ter uma noção de como as coisas são nesse outro mundo e sim, elas são horripilantes.

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Os personagens secundários também são muito importantes para a construção da narrativa, as velhinhas atrizes malucas, Sra. Spink e Sra. Forcible, que moram no andar debaixo com seus vários cachorros e o senhor misterioso que diz ter um circo de camundongos lá no sótão. E não posso me esquecer de mencionar o gato! Adoro o fascínio que Neil tem por gatos, este já é o segundo livro que leio onde eles são retratados como criaturas adoráveis e ótimos aliados. Fiquei um pouco triste de o Wybie não existir no livro, mas gostei muito da importância dele e de sua avó no filme.

“Gatos não tem nomes” ele disse.

“Não?” perguntou Coraline.

“Não”, respondeu o gato. “Agora, vocês pessoas tem nomes. Isso porque vocês não sabem quem são. Nós sabemos quem somos, por isso não precisamos de nomes.”

Se a Outra Mãe já é assustadora no filme, a sua versão no livro é macabra. Das coisas que ela fala, aos trejeitos, desde o começo ela já parece má (provavelmente a principal razão pela qual a Coraline não caiu nas mentiras ditas por ela). A todo momento em que a Outra Mãe aparecia eu já ficava em alerta e arrepios percorriam a minha espinha, ela é sinistra. Preciso salientar que também adoro o fato de Neil construir excelentes personagens femininas, tanto vilãs quanto mocinhas. A Outra Mãe do filme tem uma aparência real de algo como uma aranha gigante e má, mas no livro ela é mais como uma coisa má, uma sombra, algo que não pode ser muito bem definido fisicamente, algo sombrio e escuro. Ela me lembrou a vilã de O Oceano No Fim Do Caminho e na minha cabeça as duas são primas distantes. Também admiro o quanto as crianças são importantes nas narrativas criadas por Neil, elas são fortes, determinadas e muito melhores do que os adultos nas histórias!

Coraline se perguntou por que tão poucos adultos que havia conhecido faziam algum sentido. Ela também se perguntava com frequência com quem eles achavam que estavam falando.

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Nesta edição que comprei, que é uma em comemoração aos dez anos do livro (isso em 2012, agora o livro já tem treze anos) há um prefácio onde Neil comenta algumas coisas sobre o processo de Coraline, como o fato de ele ter digitado o nome Caroline errado acabou gerando o tão curioso nome da protagonista e que ele decidiu mantê-lo. Que ele morou em uma casa que tinha esta tão estranha porta que abria para uma passagem murada e que isso lhe serviu de inspiração. Como ele começou a escrever para uma de suas filhas, Holly e só foi terminar o livro anos depois a tempo de sua outra filha, Maddy, ler. Que o processo de escrita se deu em duas casas diferentes (uma delas aparece na contracapa do livro) e que a segunda casa tem a exata aparência da casa de Coraline no filme. E talvez a coisa mais importante sobre Coraline que é a mensagem que Neil quis passar, algo que ele gostaria de ter aprendido ainda enquanto era criança, de que ser corajoso não significava não ter medo. Ter coragem é ter medo, ter muito muito medo, mas fazer a coisa certa mesmo assim.

Coraline suspirou. “Você realmente não entende, não é?” ela disse. ” Eu não quero tudo o que quero. Ninguém quer. Não de verdade. Que graça teria se eu tivesse tudo que já quis na vida? Apenas ter, sem significar nada. E daí?”

It’s the most wonderful time of the year…

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Amei o desfoque dessa foto ❤️

Devo confessar que fiquei apavorada durante a leitura, mesmo sabendo como a história iria se desenrolar sempre sinto que a leitura de algo é muito mais intensa do que ver o filme. Algo que chamou muito a minha atenção foi que o livro tem apenas 160 páginas. Absolutamente incrível. Esse é meu segundo livro de Neil e bato palmas de pé para ele, sua escrita é hábil e viciante, os livros contam histórias maravilhosas e completamente devoráveis e com personagens cativantes, ele acaba de entrar para a lista de autores favoritos.Estou extremamente contente de ter visto outro lado de Coraline e mais do que recomendo a leitura deste pequeno livro assustador.

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