Mosquitolândia – David Arnold

Mosquitolândia é definitivamente um livro estranho.  A começar pelo título que já me chamou atenção. Mim – acrônimo de Mary Iris Malone – não está nada bem, além de ser uma coleção de esquisitices. Após o divórcio dos pais Mim passa a morar com o pai e a madrasta no Mississippi, ou Mosquitolândia como ela gosta de chamar, e também passa a ser medicada contra sua vontade. Seu pai a obrigada a ver um novo psicólogo, que ao contrario do anterior é muito adepto de tratamentos com remédios, então é assim que as pilulas do Abilitol entram na vida de Mim. Crítica interessante esta com relação aos pais que medicam seus filhos excessivamente e sem motivo, Mim é uma adolescente normal que apenas está passando por uma fase turbulenta da vida.

Escrever meio que… Amarra as pontas soltas do meu cérebro, sabe? De todo jeito, você devia escrever. É melhor do que sucumbir à loucura do mundo. E é mais barato do que tomar remédios.

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Ao entreouvir uma conversa entre o pai e a madrasta Mim descobre que sua mãe está doente. Sem pensar em mais nada ela decide viajar até onde a mãe está para vê-la, custe o que custar. É então que começa sua jornada. Uma das melhores partes do livro sem dúvida foi essa roadtrip, onde Mim passa por muitas aventuras e perigos improváveis em uma jornada de autodescoberta.

Quando viramos a esquina, foi como atravessar o espelho da Alice, só que, em vez do Jaguadarte e da Rainha Vermelha, encontramos revolucionários idealistas, pessoas que amaldiçoavam o sistema, pessoas que se recusavam a reverenciar a mediocridade suburbana.

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Sao 1.524 quilômetros pela frente e há muito sobre o que refletir nessa longa viagem. Alternando entre os capítulos do presente, Mim escreve cartas para alguém chamado Isabel, a quem só iremos descobrir a real identidade e importância na narrativa bem no fim do livro. A narrativa é extremamente fluida e fácil de ler, terminei o livro em dois dias, e recheada de referências nerds e afins, aliás Mim até brinca que se houvesse um filme de sua vida ela poderia ser interpretada por Ellen Page (a ilustração da capa é igualzinha!).

Juro que, quanto mais velha fico, cada vez mais valorizo os maus exemplos em vez dos bons. É uma coisa boa, porque a maioria das pessoas é um bando de peões egocêntricos, neuróticos e autocentrados que insiste em usar óculos para miopia em um mundo hipermetrope. E é exatamente esse tipo de ignorância míope que gerou minha teoria visionária. Eu a chamo de “Teorema Mim do Macaco de Não Imitação”, e se resume a isto: acredito que existem pessoas cujo único propósito na vida é mostrar ao restante de nós o que não fazer.

Dois importantes personagens que cruzam o caminho de Mim na viagem são Walt e Beck. Walt é um garoto com síndrome de down cheio de amor pra dar. Ele é um fofo. Um ponto positivo da narrativa é que o autor inseriu vários temas sérios que se contrapõe com o humor e a leveza da história. Beck é um fotógrafo-hipster-bonitinho e também o crush de Mim.

Apesar de achar que o livro poderia ser mais coeso, mas a quantidade de quotes maravilhosos do livro compensou isso. Há diversos pensamentos, observações  e frases marcantes, muitas vezes recheadas de sarcasmo e uma imensa crítica social, especialmente a sociedade de consumo, que me fizeram gostar muito do livro. Minha grande ressalva é relacionada com a quantidade de acontecimentos que se desenrolam no livro, que em alguns momentos parecem se atropelar e soam até meio irreais.

As sacolas de compras, com o retumbante VIVA SUA VIDA, são um ótimo exemplo disso. Além de desencorajar a morte, a frase não significa absolutamente nada. Algum engravatado em algum prédio alto pensou que isso soava bem, e agora está estampado em uma sacola. Bem na minha frente, me fazendo querer desistir de viver a minha.

O final foi provavelmente uma das melhores partes da narrativa, li muitas resenhas que compararam o tipo do livro com as coisas escritas por John Green e apesar de concordar um pouco ainda acho que Mosquitolândia pode ser considerado o irmão mais novo indie-alternativo-conceitual de um livro de John, isto é se essa nomenclatura fizer sentido. Gostei do fim porque já li alguns livros com essa premissa semelhante de “jornada de autodescoberta” e afins mas que quando atingem o fim tudo desmorona, não atingindo as expectativas. Com Mosquitolândia felizmente o final do livro foi mais do que satisfatório, ainda que seja um desfecho que fica em aberto, gosto da sensação de que os personagens ainda estão por aí vivendo suas vidas.

É um livro diferente, mas vale a leitura, um três estrelas.

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