O sol queimava, desfazendo-se lentamente em cores rubras em um pôr do sol magnífico. Por toda a cidade de Oslo as pessoas encerram seu dia. O momento de retornar para seus lares é próximo.

Em meio a toda esta agitação ela caminha calmamente pelas ruas, seu destino? A doca de Oslofjord. Seu passatempo favorito é observar o sol se por na ponta da doca, as pequenas gotículas do mar batendo-lhe na pele, o cheiro de maresia inundando as narinas e o frio cortante esvoaçando os cabelos. É um momento magistral, sublime e etéreo.

Os passos ecoam molhados na calçada, chovera a pouco deixando nas ruas poças de água. Por sorte a chuva dissipara e o céu se abrira, as luzes rasgando a cobertura macia das nuvens e se infiltrando por cada espaço até que nessa mistura de cores o sol venceu apenas para logo depois despontar.

Como um comichão atrás de si ela percebe estar sendo seguida. Muda então sua rota algumas vezes e o estranho que a segue repete metodicamente seus passos. Ela para, ele para. Volta a andar, ele a segue. Ela prende a respiração por um momento e tudo fica em silêncio. Num súbito rompante decide-se e desata a correr.

O eco de seus passos é intensificado pela repetição que ocorre do estranho logo atrás. Ela vira rapidamente para olhar e depara-se com uma figura esbelta, cabelos pretos e olhos como duas órbitas negras. A respiração falha e o coração parece lhe saltar do peito.

Há poucos metros ela vê, a doca se aproxima. Os últimos metros são vencidos com pouco esforço e ao pisar no primeiro degrau a paisagem que a recebe lhe tira o fôlego. É o ápice do por do sol. Pouco antes da escuridão total e amorfa. Ela corre até a extremidade da doca, numa explosão de sentimentos, esquecendo-se do estranho por um momento.

Mas ele não esquece dela.

Avança os passos decidido, as roupas pretas encharcadas deixando uma trilha de água, as botas rangendo na madeira. Os olhos com um único objetivo. Em segundos está quase em cima dela. A adrenalina corre em suas veias, pura e intensa, a expectativa da caçada, que sempre o consome e o faz realizar tais atos obscuros como os que virão a seguir.Estica a mão e toca-lhe a pele macia, um choque de eletricidade momentâneo, fazendo o soltar todo o ar que nem sabia que segurava. Vira-a para si, encontrando novamente em seus olhos todas as nuances do sol refletidas, recheados de um sentimento de puro êxtase apenas por ter observado tão gloriosa paisagem.

E então, súbito e gutural eis que surge, rasgando as cordas vocais e perfurando a barreia do som, destruindo a paz. Obscuro, sincero, aterrorizado, talvez até mesmo mortal, é aquilo que ele veio buscar, o motivo de toda a perseguição. O grito.

*Exercício de releitura da obra O Grito de Edvard Munch, para a disciplina de Literatura do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina.

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