Esse foi um livro complicado para mim. Eu tinha muitas expectativas e elas não foram atingidas.

Em um futuro distópico no ano de 632 depois de Ford, sim aquele mesmo da linha de produção, o slogan “Comunidade, identidade e estabilidade” sustenta uma sociedade totalitária.  A população mundial é de dois bilhões de habitantes, separados em castas, e as pessoas são condicionadas e manipuladas geneticamente. Desde o nascimento as pessoas já são destinadas a trabalhos braçais ou crescem para comandar os outros.

A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de estar satisfeito nada tem da fascinação de uma boa luta contra a desgraça,nada do pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.

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As descrições desse processo, muito pior do que uma lavagem cerebral na minha opinião, são extremamente perturbadoras. É tudo muito frio e inumano, já que as pessoas são projetadas em laboratório e conceitos como mãe e pai são considerados extremamente vulgares e ofensivos. A manipulação é tão sinistra que para determinadas áreas como as de trabalho braçal é usada uma técnica de germinação onde um único ovulo se divide incontáveis vezes por meio de processos horrendos e acaba por gerar não apenas um par de gêmeos idênticos, mas pelo menos cem dele. Cem indivíduos iguais de uma vez. 

Fora isso durante toda a vida as pessoas são submetidas a lições, escutam coisas ao dormir, frases prontas que condicionam sua mente para o resto da vida. É nojento e revoltante, perturbador ao extremo. Demorei para me afeiçoar a narrativa, isso porque além de ser bem impessoal os parágrafos e a escrita são confusos demais, em uma linha é narrado por um personagem e na seguinte um outro personagem em uma situação completamente diferente é quem fala. Isso me irritou profundamente e quase me desestimulou a ler.

(…) para voltar ao presente, à realidade; presente assustador e realidade espantosa, mas sublimes, carregados de significado, desesperadoramente importantes justamente por causa da iminência daquilo que os tornava tão aterradores.

Outra coisa que me incomodou foi que achei a narrativa muito lenta, poderia ter sido um livro menor, sem tantas descrições confusas. Há muitas críticas que gostei de ler no livro, e muitas coisas que nos fazem refletir, mas ainda assim não consegui gostar totalmente. A impressão que dá é que o autor enrolou e não chegou no local prometido no fim da narrativa. Durante a narrativa dois personagens trazem um Selvagem para o mundo civilizado, e os debates e reações que envolvem esse personagem foram muito interessante, nos prova que a forma como somos criados é de crucial importância para nossa formação como cidadão. Apesar de tudo o fim do livro foi horrível e até um pouco sem graça, mas acho que quando o livro foi publicado (em 1932) o final teve mais impacto, isso porque como é uma obra muito antiga acredito que já vi muitas coisas similares. A incessante quantidade de frases de Shakespeare ditas por um personagem foi interessante para dar uma quebra na rigidez e polidez da fala desta sociedade distópica, mas acho que o autor se empolgou um pouco.

É evidente a crítica ao american way of life feita pelo autor. O uso de Ford como marco de data não foi ao acaso, neste futuro as pessoas não acreditam mais em Deus, para eles não há necessidade disso, devido ao seu condicionamento mental e o uso de expressões que levam o nome de Ford exemplifica isso. Admirável Mundo Novo não superou Laranja Mecânica para mim, gostei muito mais dos debates propostos pelo segundo. É difícil admitir, mas a parte que mais gostei do livro de Huxley foi o prólogo.

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