Annelise havia sido avisada. Não deveria procurar por coisas próximo as Ruinas Antigas. Era lá onde habitavam os Espíritos Malignos, aqueles que uma vez despertaram no primeiro século e fizeram do mundo o caos.

Depois de muitas batalhas finalmente os povos Abençoados haviam conseguido expulsar o mal do mundo e restaurar a paz. Mas o mal nunca ia embora de verdade, ele sempre estava à espreita.

Ela ouviu um farfalhar, como asas, e virou-se rapidamente. O que viu roubou todo o ar de seus pulmões. Era um deles, um dos monstros que permeavam as histórias contadas em volta de fogueiras, apenas para adultos, mas todos sabiam que as crianças iam aonde não deviam e ouviam as histórias mesmo assim. Era para isso que as histórias eram contadas, para assustar as crianças, para que elas soubessem do horror que havia no universo.

O monstro era todo preto e imenso, esquelético e com uma capa que lhe cobria, com mil galáxias bordadas sobre ela, que rodavam com suas orbitas incessantemente. Na ponta de suas escápulas a capa se distendia em forma de duas asas compridas e finas. Era como se milhares de buracos negros estivessem costurados lado a lado. Era o exemplo do caos. De sua boca apenas um tubo, com um barulho como um chiado ensurdecedor e sinistro, que sugava o ar para dentro. Suas mãos eram como garras, e chegavam quase ao chão. E seus olhos eram brancos e leitosos, com algum tipo de substância gasosa rodando dentro deles.

dark

Mas o pior era a fumaça que emanava dele, densa e escura como um abismo ela ia se arrastando, e quando tocou a sombra de Annelise uma onda de tristeza como ela nunca havia experienciado antes tomou conta dela. Com um arfar ela se dobrou e apoiou as mãos nos joelhos. Ela já tivera medo, e nenhum problema em admitir isso, mas nunca estivera tão assustada na vida.

O monstro deu um uivo, como uma lâmina de um machado cortando o gelo. Outros uivos se seguiram e o que parecia era que o monstro gargalhava, exultante. Annelise se recompôs e empunhou sua espada que refletia o brilho azul de suas vestes. O monstro parou abruptamente e a encarou com desdém. A luta então começou.

Annelise havia perdido a noção do tempo, parecia que já haviam se passado horas. Ela dava ao máximo de si para desviar dos golpes mortíferos da criatura, mas ela estava se cansando e a rapidez de seus reflexos diminuía pouco a pouco. Não havia como pedir ajuda, não havia esperança.

Em seu momento de distração a criatura havia se aproximado, e ela pôde perceber que no tubo que era a boca do monstro, haviam alguns dentes pontudos, que reverberavam quando o ar passava. Enquanto olhava assustada, pareceu que a boca do monstro se distendeu em um enorme sorriso de escárnio. A cabeça se movendo curiosa para olhá-la.

O medo a dominou. A criatura avançou e Annelise tentou contê-lo com a espada, mas já era tarde. Ele a agarrou com uma das mãos com garras nojentas e a levou para perto de seu rosto. Quando ela achou que era o fim e que seria devorada, ele abriu a boca ao máximo e começou a sugá-la. Não o seu sangue, mas a sua alma. Uma sensação horrível tomou conta dela, uma dor insuportável, mil lâminas perfurando-a, ela estava perdendo a si mesma.

Desesperada ela começou a se debater, tentando se livrar da horrorosa criatura, mas aos poucos ia enfraquecendo, e ele cada vez mais forte. Foi quando um brilho azulado cortou o ar, ferindo o monstro. Ele a soltou de imediato, derrubando-a no chão. Era o Mago Azul Asgarart. A fera voltou-se para ele, preparando-se para o ataque, mas ele fez uma bola de luz e lançou-a na direção do monstro, ele se encolheu e deu um urro horrendo, e com isso desapareceu enrolando-se em um pequeno buraco negro de sua capa.

O Mago correu para Annelise e ajudou-a a levantar. Quando ela ficou de pé suas vestes, antes de cor azul e com pontos de luz agora tinham uma cor azul escura, como o fundo do oceano. Sua capa antes lindamente com um tom de turquesa agora era inteiramente preta. Ela estava viva, mas não necessariamente bem. Alguma coisa estava quebrada, alguma coisa estava faltando. Essa experiência a havia mudado e nada mais nunca poderia ser como era antes.

 

*Proibida a reprodução, total ou parcial sem prévia autorização. Todos os direitos reservados Ketelen Cruz.*

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